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Altos degraus.

Iniciado por Rawen, 16/09/2016 às 16:30

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Altos degraus...

   Acho que seria um desacato começar este texto sem me apresentar a você, leitor.

   Sou nascido num pequenino e pobre bairro de uma cidadezinha, violento e fechado por essência. Pouca cultura é um dos muitos adjetivos que podem descrevê-lo, mas creio que pude, apesar de tudo, criar minha própria.

   Aos doze comecei a trabalhar como um engraxate, comum na época. Não era um trabalho que me garantia pesar os bolsos com moedas, mas me ajudava a comprar os maços de cigarro e a confiança de meu pai. Era uma manhã normal, raramente esse termo era mudado, e eu não ligava pra isso. Arrumei minha pequena maleta — era de meu irmão, que já não a usava mais, agora trabalhava na obra do túnel que levaria à capital mais rapidamente, dormia lá —, coloquei meus sapatos remendados e corri um pouco para pegar o melhor lugar na calçada, próximo ao bar onde vários homens a procura de um serviço dos meus iam todas às tardes, manhãs e, às vezes, até à noite. Geralmente eu era o primeiro mesmo, hoje era um dia desses e lá estava eu.

   Saiu de dentro do bar um homem alto e de barba mal-feita. Apesar de ter ainda cabelos negros em sua cabeça, aparentava uns cinquenta anos por sua pele. Ele olhou-me por alguns segundos, então se aproximou pedindo por meus serviços. Eu fiz, como sempre, o mais bem-feito possível, planejava conseguir o suficiente para comprar algum doce junto aos cigarros de meu pai. O homem começou a suar e disfarçar para os lados, então, ao terminar, pedi que pagasse. Ele tirou da mala um livro estranho, dizia custar muito e que não tinha dinheiro ali consigo. Ouvi o que o velho dizia e peguei o livro, planejava vendê-lo, já que custava tanto. Terminei o serviço daquele dia e comprei os cigarros de marca genérica, sobrou para dois chicletes. Um masquei até minha casa e outro enquanto lia o curioso livro que posteriormente planejava vender. Eu não sabia ler e o livro não possuía figuras, então tive uma ideia, eu, por algum motivo, realmente queria ler aquele livro. Comecei a por uma segunda forma de pagamento. Leitura de um trecho do livro, este estava marcado. Alguns poucos aceitaram a segunda forma, mas o fizeram. Eu decorava o trecho que liam e, ao chegar em casa, tentava entender o motivo de  aquelas letrinhas formarem tal frase. Com o tempo, pude aprender a ler eu mesmo o livro que ganhara.
 
   Aos dezesseis já tinha o lido completamente, além de saber um básico da língua portuguesa. Vendi aquele livro que ainda se encontrava em perfeito estado e pude comprar outro, fui assim fazendo, agora eu também trabalhava na construção do túnel. Meu irmão morreu dois anos atrás nesse trabalho, e agora entendo o motivo. Aos quinze já se pode trabalhar aqui, mas o trabalho é adulto. Ainda arranjava poucos minutos para ler alguns trechos dos livros que eu comprava raramente em minhas idas à capital, eu ia até lá buscar materiais, era um daqueles faz-de-tudo, o mais baixo de todos em cargo, mas isso me permitia comprar os tais livros até mensalmente.

   Passei a terminar os livros em tempos cada vez mais curtos, um deles me apaixonou por duas semanas, uma grande evolução para aquele que demorou quatro anos para terminar o primeiro. Logo, em minhas pobres reservas, já havia dinheiro o suficiente para começar uma vida em qualquer cidade de classe média, eu estava agora com meus vinte e dois anos. A capital de meu estado simples foi a escolhida, eu só pensava nos livros.

   Em três dias eu já estava empregado, o tempo atual tem ficado mais fácil para operários experientes como eu, era trabalho numa fábrica qualquer, mas já ganhava mais que em meus dois empregos anteriores. O tempo para minha leitura foi se tornando maior, e logo eu tinha dinheiro para comprar papel e caneta. Comecei a escrever alguns trechos de algo qualquer, e em poucos meses eu já tinha algumas páginas, e quando tive confiança, as mostrei para um amigo do trabalho. Ele me levou para falar com o dono e meus papéis ficaram com ele por umas semanas, eu não entendia nada, mas no fim desse tempo ele nos chamou para sua sala. "Uma editora", iríamos procurar uma dessas, segundo ele. Pelo que conversavam, não era algo tão simples, o que seria essa tal editora? Os meus trechos serviam para algo? Descobri que sim. Dois meses depois foram até meu pequeno quarto no condomínio dos trabalhadores da fábrica, me diziam que agora eu tinha escrito um livro, e que eles iriam editá-lo e imprimi-lo. Para mim isso era impossível. Pessoas escrevem livros? Eu nunca tinha parado pra pensar nisso, achava que eles simplesmente existiam, mas não sabia o quão complexo ou simples era fazê-los.

   Dois anos é pouco tempo quando se tem seus vinte e dois, agora vinte e quatro. Recebi um pacote por correio, era meu livro, pronto para ser vendido. Escrevi uma simples sinopse de minha obra e os enviei pelo correio, e em poucas semanas meu livro já estava circulando. Explodi de alegria, em pouco tempo já escrevia mais trechos para um novo livro, talvez. Seis anos, prazo que demorei dessa vez, mal sabia eu o quão ruim era minha escrita, quão errada. Me pagaram um curso para aprender a língua, já que eu não possuía escolaridade. Nestes seis anos fiz muitas coisas, inclusive escrevi o livro que foi responsável por minha atual fama no mundo dos escritores.

   Atualmente tenho quarenta e sete anos, tenho esposa e dois filhos, a conheci na faculdade que me foi paga com o dinheiro dos livros, agora somam dezessete. Posso dizer que o que escrevo nessa auto-biografia que será posta nesse novo livro é um resumo da minha vida, e que poucos conhecem. Também gostaria de relembrar que o único apoio que recebi foi o de meu chefe, meu colega e os editores, nada além disso. Também devo agradecê-los, pois atualmente sei como o mundo pode ser cruel, e também conheço minha sorte. Posso dizer que subi pulando os degraus de um metro que foram postos em minha escada.

   Prazer, me chamo conquista.[/box2]

Nossa, parabéns, ficou muito bom. No final já até tinha esquecido que era história e realmente estava imaginando os eventos desse personagem, como se fosse mesmo uma auto biografia. Continue assim
Born in 95 to die

Obrigado. Que bom que gostou :3