Sabe aquela sensação de clicar em um "New Game" qualquer, entrar em um novo mundo e, de repente, perceber que você está dentro de algo que já não é mais apenas um jogo? Sabe aquele ditado "Nunca julgue um livro pela capa"? Sabe quando a necessidade de mostrar algo ao mundo é mais forte que você? A sensação de que haverá um vazio na vida de todos que não tomarem conhecimento do que você acaba de descobrir... A sensação de ver uma obra prima diante dos seus olhos, e não conseguir tirá-la do pensamento durante semanas a fio...
Senhoras e senhores:
Deadly Premonition"Rainy Woods", "Red Seeds Profile", "Twin Peaks - the Game", "Deadly Premonition"; chame como preferir. É hora de falar do jogo que eliminou de vez a dúvida que surgia sempre que alguém me perguntava: "Qual o melhor jogo de todos os tempos na sua opinião?"
Originalmente lançado para XBox 360, e algum tempo depois, na versão Director's Cut, para PS3 - ignoremos a versão de PC - , Deadly Premonition nos apresenta uma trama voltada ao mistério em torno do assassinato de uma bela jovem na pequena cidade de GreenVale. "Quem matou Anna Graham?" é a pergunta que fica no ar; e nós, assumindo o controle do Agente Especial do FBI, Francis York Morgan, entramos de cabeça nessa investigação.

Não deixe os primeiros minutos de jogo te enganarem. As mecânicas ao estilo Resident Evil e Silent Hill não são, nem de longe, o ponto alto do jogo; a temática Survival Horror que Deadly Premonition nos apresenta logo nos primeiros minutos nos faz pensar que estamos presenciando apenas mais um título "same old", quando na verdade, o jogo só começa pra valer quando conhecemos os primeiros moradores de GreenVale: o Xerife, George Woodman, e sua assistente, Emily Wyatt.
É aqui que o jogo começa a brilhar de verdade: nos diálogos entre personagens. Todos são caricatos, quase cartunescos, e ainda assim, eles logo deixam de ser apenas personagens de um jogo, para se tornarem pessoas de verdade. É até contraditório, parando pra pensar: como é possível que personagens com animações robóticas, movimentos labiais fora de sincronia com a dublagem e personalidades totalmente estereotipadas, possam ser tão cativantes?

Parte da magia de Deadly Premonition está no protagonista, York. Este detetive pode ser facilmente definido como "fora da casinha", por seu comportamento estranho, pelo fato dele conversar com um "amigo imaginário" chamado Zach, sem se dar ao trabalho de falar em voz baixa ou explicar aos demais personagens a respeito do mesmo. York busca pistas referentes à investigação em seu café; ele fala sobre filmes dos anos 80 - 90 enquanto dirige pelas ruas de GreenVale, e volta e meia, está fumando um cigarro, seja dentro de um hospital, ou no refeitório, em frente aos seus colegas de investigação, os policiais da cidade.
Por mais absurdo que o protagonista possa parecer, ele simplesmente funciona. Abaixe sua guarda pras loucuras de York durante um breve momento, e você será capturado pelo seu carisma; você vai se pegar torcendo por ele, dando risada dos seus comentários, e quando você começar a "desacreditar", BAM! Ele vai te jogar conceitos investigativos realmente interessantes.
Essa é a magia de Deadly Premonition: ele é um jogo galhofa o tempo todo, mas quando chega a hora de assumir um lado sério, ele o faz de maneira brilhante. Houve momentos, durante os diálogos relacionados à investigação, onde eu simplesmente parei e disse: "Ok, eu não estou mais vendo um diálogo entre personagens, eu estou vendo uma conversa entre um agente do FBI e oficiais de polícia.". Isso resume o quão competente a equipe de desenvolvimento do jogo foi nesse aspecto. O conhecimento investigativo que o jogo nos passa é muito satisfatório, e isso traz uma sensação de progresso e dever cumprido, mesmo nas partes em que a investigação nos faz andar em círculos.
==//==
Os gráficos de Deadly Premonition seriam bons, se ele tivesse sido lançado para PS2 (O que era o plano original, mas devido a alguns problemas, não foi possível). O jogo apresenta texturas básicas, animações robóticas, iluminação amadora, entre muito outros. A cidade de GreenVale é bonita, os personagens têm silhuetas bem realistas, os ambientes têm um certo charme. Mas os gráficos propriamente ditos, são totalmente ultrapassados.

Mecânicas de jogo, oh, céus... Dirigir em Deadly Premonition pode ser uma das experiências mais aterrorizantes da sua vida. A física dos carros é horrenda; o sistema de mira - durante os trechos com inimigos - é falho; Bugs existem em todo lugar, encontrá-los não requer esforço algum.

Pessoalmente, as atrocidades gráficas e as loucuras do Gameplay não me incomodam; pelo contrário, elas me garantem boas risadas, visto que nenhuma compromete o jogo, pelo menos não até onde eu sei. Ainda assim, é válido ressaltar que há SIM pontos fraquíssimos em Deadly Premonition.
Pegando o gancho, efeitos sonoros: Sem a menor dúvida, o ponto mais fraco do jogo. Embora alguns sons nos tragam a nostalgia dos clássicos de Survival Horror, a mixagem e a falta de harmonia - tanto sonora quanto na parte de ajuste de volumes - são gravíssimas. A dublagem tem volume instável, o som de tiros é estrondoso, a música ambiente - às vezes - ofusca a dublagem, o som de objetos quebrando ofusca todo o resto, vários efeitos sonoros têm cara de "Public Domain", pois são totalmente diferentes da atmosfera criada pelas músicas e sons ambientes.
Ainda assim, a dublagem merece ser citada. Os personagens não seriam nada sem o maravilhoso trabalho de Voice Acting da equipe responsável. Deadly Premonition é uma aula neste quesito.
Continuando no som, vamos à trilha sonora. Esta, em especial, ocupa um lugar junto a todos os pontos altos do jogo já citados anteriormente. As composições são muito bem elaboradas, maduras, e a variedade de gêneros musicais presentes na OST de Deadly Premonition é assombrosa. Do Jazz Fusion ao Heavy Metal, do piano triste ao som ambiente misterioso, do Pop ao Disco, do Punk ao Country; Deadly Premonition tem de tudo, e as músicas são lindas.
Confira:
A quantidade de tópicos e detalhes que podem ser abordados é simplesmente imensa:
- Inúmeros personagens interessantes e carismáticos;
- 50 SideQuests;
- Liberdade de exploração em toda a cidade;
- Mecânicas de dia e noite, influenciando a rotina de cada personagem e NPC;
- 00:00 às 06:00, surpreenda-se;
- Sistemas de fome, sono, gasolina, dano em veículos;
- Compra de comida, trajes, carros, armas;
- Retrospectiva da investigação com interação;
- Colecionáveis;
- A sala vermelha e o passado de York;
Mas vou parar por aqui, antes que eu escreva um livro.
==//==
Deadly Premonition é um diamante bruto, um jogo que nos conta uma história madura e engraçada, trágica e galhofa, absurda e genial, e o faz de um jeito único. É um jogo que abusa da nossa paciência, nos faz duvidar da própria sanidade, mas também nos recompensa com cenas tocantes;
É um jogo tão ruim, mas tão ruim, que beira a perfeição, uma perfeição caótica e frágil, que transforma Bugs em pérolas, que transforma animações horrendas em sacadas geniais... uma perfeição que aconteceu justamente por não ter sido planejada, até porque isso não depende de programação, muito menos de planejamento... isso simplesmente acontece.